quinta-feira, 2 de setembro de 2010

CAMPANHA POLÍTICA... QUE TAL UMA LEI PRA PROIBIR?

Há muito tempo ando com uma idéia em gestação. Deve ser gestação de elefante ou baleia azul, mas agora começa a pesar na minha cabeça e merece ser parida. O momento é oportuno, estamos no meio da "festa da democracia", onde os parlamentares vão dançar debaixo do globo de espelhinhos e beber suas champanhotas, e o povo, depois, vai varrer o chão e arrumar as mesas. Quando a festa acabar, o trabalho sujo de aguentar a desgovernança vai ficar pra gente. No meio da iminência das ruas imundas por santinhos derramados por ali, da histórica e anunciada eleição de uma chefe do executivo que vai representar um evento único mundial do lider carismático weberiano á quinta potência transferindo votos, temos que eleger um vilão maior: a campanha política. Eu pergunto: em quem vc vai votar pra deputado estadual e federal? No seu vizinho? No padre? No lider comunitário? Na irmã Dulce? No Tiririca? Um amigo meu foi candidato a deputado estadual na última eleição. Um cara correto, bancário, estudioso na faculdade, bom carisma. Encontrei com ele logo após ter decidido concorrer. Entre umas e outras afirmações, o que ele me disse foi simples: quem ganha eleição é dinheiro. Dias atrás, um outro episódio me deixou mais injuriado ainda. Um ex-cliente passou a trabalhar na campanha de um dos deputados estaduais mais votados do meu estado. Esse indivíduo me contou que o tal deputado está gastando alguns milhõezinhos na campanha, e que arregimentou uma turma pra ir passear no interior e falar com os prefeitos, pra que esses garantam a reeleição desse deputado, apoio pra garantir ao menos uns 2000 votos por município. Parece que vai conseguir. O meu ex-cliente? Cabo eleitoral, que vende consultoria de gestão pública, tem garantido pelo deputado que depois a empresa dele vai fechar contratos com essas prefeituras. E o povo? Continua varrendo o salão cheio de sujeira depois da festa. Histórias como essas são uma miríade no fabulário não fantasioso do cotidiano, e o que elas provam é simples: nosso sistema eleitoral é uma piada. Em quem vou votar pra senador: Naquele que me parece, de longe, pela tevê e pela tradição política, alguém que preste. Mas isso não explica a realidade geral. Se fosse por dedução e por imagem de probidade e honestidade, depois de tantas notícias e até prisões, como o Maluf seria o deputado federal mais votado do país, na ultima eleição? Como diria o Pelé... mesmo sem ser um grande gênio da filosofia, parece que o povo não sabe mesmo votar. Mas o povo, minha gente, segue apenas o sistema, "eintende"? Nosso sistema é um uso escancarado de mídia, imagem pública e dinheiro. Como se pode dizer então que se vota em quem se conhece e confia? Isto é uma tremenda demagogia, votar num bom futuro servidor público é quase questão de sorte. E isso não é apenas para as pessoas menos politizadas ou menos privilegiadas em questão de informação. É mídia, é exposição, é dinheiro. Já falei outro dia aqui sobre as centenas de milhões de reais em campanha. Qual é o sentido disto? É um sentido óbvio, quase um sistema de castas: o voto é soberano, mas o poder de decisão é escravizado. Num devaneio meio filosofante, dá então pra começar a pensar em como isso poderia ser diferente. Dia desses, ouvi uma história de um amigo que morava num dos países da Escandinávia. Me disse ele que um norueguês, que ficou seu camaradinha quanto esteve lá, um dia disse que não estava satisfeito com alguma coisa e queria falar com o ministro da fazenda. Morava na capital, e então resolveu ir até o escritório do ministro, sem saber exatamente como seria recebido. Descobriu o endereço, chegou lá e era uma casa grande, sem seguranças na frente. Tocou a campainha, e uma senhora de meia idade, vestida com sobriedade, atendeu a porta. "Pois não" - disse a mulher. "Gostaria de falar com o ministro da fazenda" - disse o cidadão. A mulher então lhe disse "aguarde um momento por favor". Ela subiu uma escada, e algum tempo depois voltou e disse a ele "por favor me siga". O homem andou atrás dela até chegar numa sala de bom tamanho, onde havia um homem sentado trabalhando. "Pois não?" - disse o homem. "Eu gostaria de falar com o ministro da fazenda" - disse o cidadão. "Pois não, sou eu mesmo, pode-se sentar". Meio incrédulo, perdido, o homem sentou-se enquanto a mulher se retirava. "Ministro, antes de começar eu gostaria de elogiar o trabalho da sua secretária." - disse o cidadão, se referindo à mulher que o conduzira até a sala. "Secretária? Mas minha secretária não está aqui hoje" - disse o ministro. "E quem era aquela senhora que me trouxe até aqui?" - perguntou o homem. "Ah, aquela era a ministra da educação.". Novamente, fabulário ou não, o que quero destacar é a proximidade do homem público com o cidadão. No sistema brasileiro, especialmente porque a grande maioria das pessoas de bem tem aversão à política, continuar votando é um exercício de suposição. Quantos eleitores conhecem pessoalmente seus representantes? Votar num antigo senador, com renome nacional, é na verdade uma escolha confortável, e talvez, única. Ora, o homem está na mídia, tem o nome que levanta suas antenas, tem tradição. Porque não votar nele? Mas a coisa é mais grave ainda: imagine alguém que vc admira. Pode escolher, por exemplo, o dono do secos e molhados, um homem atencioso, que a comunidade conhece como honesto, que é caridoso e trata bem seus empregados. Ele terá um bom número de votos da comundade local, certamente. O primeiro desafio, contudo, será fazer o comerciante se candidatar. Gente decente normalmente não quer carreira política. A imagem de nossos parlamentares e políticos é sempre nebulosa, é um misto de poder devassado pela corrupção. Um homem sério, empreendedor não deseja a carreira política como impulso. Isto até pode acontecer por vocação, por histórico familiar, mas como dizem os adesivos por aí "política não poderia ser profissão". Mas enfim, o comerciante se convenceu e se candidatou. Acredita que pode fazer sua parte pelo país. Vai ser eleito? Provavelmente não, ele não está na mídia. Pode ser eleito líder da comunidade, um dia quem sabe sub-prefeito, e aí sim, um dia pode ser vereador ou deputado, pra depois pensar em subir mais. Mas nesse ponto, ele já começou uma carreira. O que é pouco plausível, afinal, ele já tinha outra carreira. O que quero demonstrar é que a gente confia nosso país a gente desconhecida. Gente que mora do outro lado da telinha de televisão. Gente que fala bonito, e olhe lá, num microfone em cima do palanque. Lábia, mídia, tradição, isso tudo não garante nada. Não conhecemos em quem votamos. E, voto dado, a gente se desincumbe. Isso causa uma sensação pior ainda: depois que eu elejo, não consigo cobrar quem coloquei no poder. Ele não vem atender a porta, ele se torna um fauno etéreo que aparece nas inaugurações de usinas hidrelétricas na telinha da tevê. Diante de tudo isso, a idéia que gestava em minha cabeça e que começou esse post é simples: votamos uma mudança constitucional, simples, direta: FICA PROIBIDA TODA ESPÉCIE DE PROPAGANDA ELEITORAL, DE EXPOSIÇÃO EM MÍDIA, DE APLICAÇÃO DE VERBAS PÚBLICAS OU PRIVADAS PARA CAMPANHA POLÍTICA. Loucura? Não acho. A campanha política passaria a ser permitida de um jeito só: candidato falando diretamente pro eleitor, presencialmente. A lei teria inclusive que proibir o uso de verba particular do candidato. Este nem poderia usar microfones, outdoors, nem mesmo megafones. O voto, meu amigo, seria conquistado na unha. Estou aqui pensando se isso é um devaneio que fere a lógica... e estou convencido de que não. O paradigma estaria totalmente quebrado, e as figuras públicas passariam a ser apenas quem a gente conhece de perto e confia de verdade. A chance da gente poder bater na porta do candidato seria imensa. A gente mal conhece o delegado, quem dirá o senador. Acham loucura absoluta: pois saibam que o primeiro ministro japonês só pode fazer um tipo de campanha: pessoal, com o microfone na mão, em cima de um carro de som. Nada de tevê, rádio, etc (furtando nosso tempo diário). De qualquer modo, como isso é um brain storm absoluto, com suas razões próprias, deixo a questão aberta para todo tipo de consideração. Duas cabeças normalmente pensam melhor que uma só.